2008-06-15
"O projector eléctrico, colocado no Monte da Raposeira a expensas do arrojado industrial Sr. Emílio Biel, deu um resultado magnífico. A luz dirigida para várias povoações circunvizinhas e que distam 8 e 10 quilómetros causou assombro aos seus moradores, a ponto de em algumas delas julgarem, pelo clarão que lhes entrava pelas portas das janelas, que as casas estavam incendiadas."
in "O Eco", Vila Real, 22.06.1894
Foi lançado no passado dia 23 de Maio o livro "A Central do Biel: um Enquadramento para a Musealização da Primeira Central Hidroeléctrica Portuguesa", uma edição "Museu do Douro" da autoria de Vítor Nogueira. O lançamento ocorreu no Museu do Douro e alguns pormenores sobre a Exposição que motivou podem ainda ser vistos aqui.
Karl Emil Biel (Emílio Biel, como ficou por cá conhecido) nasceu a 18 de Setembro de 1838 na então Saxónia (que viria a integrar-se no Império Alemão). Apaixonado das ciências e artes, foi investigador "amador" nas áreas da Física, Química e Ciências Naturais. Por razões desconhecidas, muda-se para Lisboa (1857) onde, já depois de ganhar fama e proveito na firma alemã Schalk, conhece o Rei Consorte D. Fernando II. Na sua condição de Fotógrafo Real - Emílio Biel foi pioneiro absoluto da fotografia em Portugal - visita o Porto e, três anos depois de ter chegado a Lisboa, muda-se para aqui. Enquanto dirige a filial da Schalk na Invicta, funda uma Fábrica de Botões na Rua da Alegria e em 1865 (Ano da Exposição Industrial do Porto e da Inauguração do Palácio de Cristal) torna-se proprietário da "Casa Fritz" (ou Casa Biel), uma das mais importantes da Península Ibérica, na Rua do Almada. Foi ao fotografar o Corgo (Vila Real) que dos seus olhos nasceu a visão de uma Central Hidroeléctrica naquele sítio; com que esforço e génio, o livro relata e enquadra de forma proficiente e bem acompanhada, não só de registos fotográficos (muitos da autoria do próprio Biel), mas também de pormenores biográficos que completam o sentido "homem e obra" desta publicação.
Como representante de diversas firmas no Porto (uma das quais originaria a actual Siemens), procedeu à primeira instalação de luz eléctrica que houve no Cidade. Importou o primeiro telefone da Invicta; importou o primeiro automóvel (Benz, naturalmente...), a primeira turbina hidráulica, o primeiro aparelho de Raio X, o primeiro aparelho cinematográfico. No trabalho de litografia, e segundo as palavras de Magalhães Lima, a Edição Comemorativa de "Os Lusíadas" a propósito do tricentenário de Luiz Vaz de Camões foi "a melhor, a mais completa, a mais nítida, a mais notável" que até então se publicou. A sua colecção de Insectos (sobretudo borboletas) foi generosamente e atempadamente integrada no Museu da Universidade do Porto.
Foi Biel que conduziu o primeiro Eléctrico do Porto, da Batalha às Devesas.
Bom fim-de-semana.
Nicolau Pais
PS - Caro Luís Gomes, não percebo em que medida a minha participação como Independente numa lista em lugar não-elegível para a Junta de Nevogilde possa toldar a minha avaliação da performance de Rui Rio (ou outros responsáveis públicos) ao nível do que se passa na Freguesia, na Cidade, na Região e no País - bem pelo contrário, considero-as complementares no dever cívico, sendo que a primeira serve de forma a legitimar a segunda; pela mesma ordem de ideias, não vejo como possa o facto de alguém ter votado em Rui Rio impedi-lo de fazer essa mesma avaliação, em pleno exercício do livre-arbítrio, ou como a recente militância de TAF no PSD possa, por exemplo, limitar a sua legitimidade para coordenar este blog. Já por diversas vezes neste Fórum critiquei a oposição e a sua ignorância - considero-a co-responsável pelo estado das coisas, sobretudo ao nível da relação desinteressada (vide abstenção, que também menciono no meu post) dos eleitores da Cidade, com as graves consequências ao nível do déficit de participação pública que acarreta. Que nome daria à ostracização do "Património Mundial" ou ao encerramento liminar da "Fundação Para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto" para depois afirmar em directo na SIC que "há festas que é preciso preservar"? À falta de melhor léxico, eu chamo-lhe propaganda, cansado que ando de "exercícios de estilo" patrocinados pela indiferença geral (a tal que deveria fazer corar responsáveis eleitos e oposição). Não exclua a hipótese, meu caro Luís Gomes, de o meu voto em 2009 cair num candidato do PSD. Mas não neste.
O Dr. António Costa, que é um homem civilizado e bem-educado, teve a gentileza de convidar o Presidente da Câmara Municipal do Porto para assistir às festas da cidade de Lisboa, mais concretamente às Marchas Populares.
O Dr. Rui Rio, que é um homem civilizado e bem-educado, teve a gentileza de retribuir, convidando o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa para assistir às festas da cidade de Porto, mais concretamente à noite de S. João e do seu fogo-de-artifício sobre o rio Douro.
Alguns ilustres leitores deste blogue conseguiram encontrar nestes simples gestos de cortesia e saudável convívio democrático, uma série de coisas que nunca me passariam pela cabeça. Para eles envio um caloroso abraço de parabéns. É de mentes assim, criativas e imaginativas, que o nosso país precisa. Pena é que não saibam orientá-las para fins úteis à sociedade.


