2008-01-20

1. A campanha "Portugal, The Europe´s west coast" não deixa de surpreender. Dali só se aproveita o esforço para promover Portugal para além das praias e do golf porque, de resto, a campanha é um desastre. Nada bate certo neste nosso exercício de auto-promoção e a começar pelo grafismo que é pobre e desinteressante. A qualidade do trabalho é tão fraca que a companhia do sr. Nick Knight - a ShowStudio - nem a incluiu no seu dossier de campanhas disponibilizado no seu site. Não os censuro: aquilo é mesmo mauzinho. E depois o que dizer daquela opção bizarra de exibir o nome do fotógrafo? Portugal by Nick Knight?!!! Isto não será um pouco imbecil? Reparem o que se está a dizer ao mundo é que não temos criativos entre nós e que nos pelamos, como bons provincianos, pelas marcas de prestígio (esfregamos na cara da Europa este trunfo: «Vejam, vejam é um Nick Knight! Sim, o da Swarovski, da Dior, do Galliano e de todas as topmodels. Não somos uns pelintras, não!» Enfim, o mesmo mecanismo compensatório que algumas subclasses sociais utilizam quando ostentam os logos das marcas caríssimas nas camisas, nos carros e nas progenituras). E afinal de contas, qual é o público alvo? Nós ou os outros? É que esta campanha até parece ser para consumo interno dada a proliferação de outdoors e de publicidade na imprensa nacional. Que sentido fará colocar um cartaz descomunal - e feio - na fachada da bela Estação de S. Bento? De certo que não é para os camones porque esses preferiam ver a obra de Marques da Silva, pelo que me atrevo a dizer que o alvo somos nós, os nativos. Com que finalidade? Não faço a mínima ideia, mas também não devo estar sozinho nisto. Mas voltando à fachada da Estação de S. Bento. Aqui, a sinalética oculta o que pretende sinalizar. A campanha pretende divulgar a marca Portugal, mas tapa-o literalmente. Quem deve ficar na fotografia: o património classificado ou o trabalhinho photoshop do Nick? O centro da campanha é ela própria, é a vaidade enjoativa e delirante dos nossos decisores. Portugal é um outdoor. A melhor maneira de vender um produto é exibir as suas qualidades. Embrulhá-lo numa embalagem tão foleira não ajuda. Acho que conseguimos vender melhor o Porto sem aquela coisa a tapar o nosso património arquitectónico. Sugeria, portanto, à Câmara Municipal do Porto que solicitasse com carácter de urgência ao ICEP a remoção daquele cartaz horrível, instalado, ainda por cima, em pleno Centro Histórico - Património da Humanidade! Em alternativa, que aplique as devidas coimas que sempre dão jeito para equilibrar as contas.
Outros pontos:
2. Na verdade, a CMP já caiu em si e já começa a olhar com outros olhos o fenómeno Miguel Bombarda. Aliás, fiquei convencido de que Rui Rio se tinha decidido por uma recandidatura quando vi o logo da Porto Lazer na campanha promocional do evento. De resto, também acho que se está a cair no exagero e toda aquela palhaçada é excusada.
3. Após cidades menores terem dado o exemplo, o Porto também já oferece acesso wi-fi gratuito em espaços públicos. Vá lá, demorou mas fez o que tinha a fazer e por isso a Câmara está de parabéns. Só um aspecto não me agrada muito: não seria melhor concentrar o serviço na Área Crítica de Recuperação e Reconversão Urbanística (ACRRU) em vez de o dispersar pela cidade?
4. Sou cliente ocasional do Bolhão e só lá vou para encontrar produtos que não encontro em mais lado algum (azeitonas de toda a variedade e ervas aromáticas, por exemplo). Para mim é claro que o mercado bateu no fundo e que assim não poderia continuar. Também é claro que o estado de degradação física e comercial do Bolhão resulta de um conjunto de variáveis, das quais não se exclui a vontade política (a degradação do Bolhão foi, em grande parte, programada). Sobre o actual projecto (e não falo apenas da arquitectura) não sei o que pensar porque não o conheço. O problema aqui situa-se noutro plano, que é o da participação pública nos processos de decisão política. Estas intervenções urbanas - pela sua dimensão material e simbólica - deveriam ser vistas como oportunidades de refundação da cidadania portuense. Por cá, faz-se tudo ao contrário: primeiro decide-se, depois debate-se ou... protesta-se. A Câmara devia ter promovido um debate prévio alargado e despartidarizado em torno do futuro do Bolhão, legitimando desse modo um programa para o concurso. Agora, só lhe resta desarmadilhar a situação, esclarecendo as legítimas interrogações da cidade.
David Afonso
adm@quintacidade.com
Ao contrário de outros contribuintes para o Blog, eu não costumo fazer compras no Bolhão, nem nunca tive esse hábito. Apesar de sempre ter vivido no Porto, e de a minha mãe trabalhar bem perto do Mercado, nunca foi hábito na família lá fazer compras. Os "frescos" só o são ao início do dia. Ao fim do dia, quando as pessoas saem do emprego e vão para casa, os "frescos" já estiveram no Bolhão quase 12 horas e por muito saudáveis e naturais que tenham sido, já não estão nas condições ideais. Imagino que haja quem tenha um estilo de vida que permita uma visita ao Mercado do Bolhão pela manhã e leve os frescos para o frigorifico em casa, mas a maioria não tem essa sorte.
Apesar disso, vou com frequência ao Bolhão. Sempre que recebo visitas passo obrigatoriamente por lá, e adoro ir espreitá-lo para ver o Porto verdadeiro. É um sítio fabuloso para fotografias e contactar com pessoas genuínas. O que todas as pessoas que levo lá dizem é ser uma pena estar tão degradado, e a falta que faz um café ou uma esplanada no interior. Parece-me imperioso manter vivo o Bolhão, mas adaptá-lo aos dias de hoje para que possa sobreviver.
Dou toda a razão e mais alguma a Alexandre Burmester. Se calhar tudo se evitava se o processo fosse mais transparente, no mínimo ficando público e claro o projecto que se pretende para o Mercado. Mas a verdade também é que o resultado do concurso público já é conhecido há muito tempo, e o projecto alternativo defendido por quem patrocina esta manifestação também prevê construção de piso subterrâneo para estacionamento e lojas em substituição das bancas tradicionais, ou seja, exactamente defende aquilo que se manifesta ser contra.
Carlos Oliveira
Cara Elena
Não comecei a pensar no Bolhão anteontem e moro na Baixa, por isso tenho muitas frutarias perto da minha casa onde posso comprar os tais legumes e as tais frutas, tratando e sendo tratado pelo nome pelos respectivos donos. Se quiser saber o que eu acho que poderia ser um programa para o Bolhão pode ler o que escrevi em Julho de 2005 sobre o assunto neste blogue. Mas eu não fui capaz de o apresentar a concurso, por isso respeito quem apresentou.
Francisco Rocha Antunes
Não se fez concurso para a Avenida dos Aliados por uma questão de economia e de tempo, e agora no caso do Bolhão, em que temos um projecto pago, avançamos para um concurso público sem antes tentar reformular o dito projecto, que custou ao erário aproximadamente 900mil euros? Há que explicar esta situação, como munícipes temos direito a que nos elucidem relativamente aos motivos que levam a autarquia a abandonar um projecto que custou essa quantia.
Existiram reuniões e estudos nos sentido de aproveitar o dinheiro investido nesse projecto? É impossível reformular um projecto desse valor? Não pode ser reajustado, com um acordo com o autor que recebeu tão bela quantia? Rui Rio tem que explicar esta opção, caso contrário fica com saldo negativo, as poupanças que fez noutros sectores não cobrem esta iniciativa de deitar um projecto já pago ao lixo; optando por não dar explicação é o autarca que acarreta com ónus do desperdício, factor com que derrotou a oposição.
Ao ler a intervenção de F. Rocha Antunes - "Bolhão: uma tradição de equívocos num mercado abandonado" fiquei com a sensação de que o autor não vai ao Bolhão, e é bem possível que não faça esse tipo de compras. Eu gosto de comprar no Bolhão e por isso costumo ir lá, sei que é cada vez mais desagradável por causa dos andaimes, sei também que ainda há muitos resistentes que compram no Bolhão, os legumes sabem a legumes(!), não são pré-embalados - o que diminui o risco de, ao abrir a embalagem, descobrir que de frescos só o nome, a higiene está à vista e não numa cave qualquer em que não sei o que se passa, além do que os mercados estão sujeitos a fiscalização, pelo que deverão cumprir as tais regras. É verdade que o problema é o horário, mas há vantagens a contrapor.
Acrescento que, como costumo ir ao Bolhão, sei que há imensos turistas que deliram com aquele ambiente - o que me espanta dada a presença dos tais andaimes - e temo que este projecto venha criar mais um espaço descaracterizado igual a tantos outros. E, já agora, a desagradável sensação de que quem o discute não passa nem perto da entrada.
Há já algum tempo, uns aborrecidos inconformistas insistem em coisas muito desagradáveis que pura e simplesmente desarrumam-nos o dia. Refiro-me ao incrível Livro Negro da Pobreza no Distrito do Porto. Segundo os seus autores, 3 em cada 10 concidadãos da nossa região vivem com menos de 10 euros por dia, ou seja, cerca de 400.000 (quatrocentas mil) pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza. Numa hipótese muito optimista podemos considerar, por exemplo, uma fatia de 5% deste universo para lá do limite da esperança, fatalmente excluídos de uma existência civilizada e digna. Estamos a falar de um potencial exército de 20.000 desesperados que naturalmente amadurecem o ódio clandestino sonhando com vingativas "noites brancas". Os "Aleixos" multiplicam-se a bom ritmo pronunciando um futuro próximo muito animado. Aconselhamos os nossos planeadores urbanos a promoverem cada vez mais e melhores condomínios fechados, bons circuitos de vigilância, etc., porque a coisa está feia, muito feia.
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Nota de TAF: nem de propósito - Rebuilding America, one slide show at a time - "people will have a tendency to show you world class behaviour if you treat them in that way".

Sábado de manhã, fui ao Mercado. Para perceber determinadas coisas há que ir aos sítios, há que vê-los, compreendê-los. Quantas pessoas que por aí escrevem sobre o Bolhão foram lá nos últimos tempos? Meses? Anos? Talvez nem na Baixa vivam, raramente aqui vêm. É indiscutível que o Mercado perdeu muita da sua dinâmica, há mais concorrência, e sobretudo, vive menos gente pela Baixa. Mas ele subsiste quase implacavelmente, subsistem aqueles que aqui vêm. O incrível não é que ainda há pessoas que vão ao Bolhão, mas sim, que apesar do estado de abandono a que foi votado o edifício, continue afluir gente ao mercado. Isso é o incrível. E está cheio! Mas desenganem-se, não são apenas velhos, há gente nova (como eu, que por aqui vivem agora), há turistas de máquina fotográfica e de sorriso estampado, há gente carregada de sacos. Há flores, fruta, peixe (e tanta diversidade), carne, pão, bom pão, uma variedade de produtos regionais que em nenhum outro sítio do Porto existe. O mercado é um elogio aos sentidos, um lugar absolutamente único. Em quantos sítios da Europa temos ainda a oportunidade de deambular por uma estrutura desta dimensão, com esta vida, com esta oferta de produtos, de cores, de cheiros, de sons? Está tudo lá, enquadrado magnficamente pela arquitectura do Correia da Silva. Mesmo assim abandonado, apoiado por andaimes, mantém o seu semblante de grandeza e dignidade.
Não me venham é dizer que a solução para tudo são shoppings, três no mesmo km2, é demais. Aprendamos com os erros dos outros. Nos anos 80 e 90, muitos mercados foram fechados por essa Europa fora e substituídos por shoppings. O Les Halles em Paris, é um exemplo, de muitos, de um projecto falhado que hoje espera uma solução.
A solução do Bolhão já lá está! O que é o Bolhão senão um imenso mercado de produtos como se diz agora "biológicos", regionais, naturais, único. Ponha-se também comércio relacionado com produtos regionais e de artesanato (tantas feiras de artesanato que por aí se fazem), de vinhos (Vinho do Porto), de gourmet, pequenos restaurantes específicos com belas esplanadas lá dentro, de pequenas lojas vocacionadas para turistas. Manter essa aura específica e atraente do Bolhão mas dotá-lo de novas valências que atraiam um novo público é isso que o Mercado precisa. Transformá-lo em shopping pode ser a solução mais rentável directamente, mas imaginem as possibilidade que se perdem. Valerá a pena? Qualquer turista irá franzir o olho quando lhe disserem que o mercado vai ser um shopping, que vai ter uma cobertura, mais um piso intermédio, dois maravilhosos pisos de estacionamento (mais carros para a cidade) que o cheiro das especiarias e das flores que ainda subsiste pelo ar vai ser substituído pelo odor apetitoso de um hamburguer com batatas.
*Pedro Bismarck [opozine]
PS. Relativamente ao site da TramCrone. Quando se estuda arquitectura é-nos ensinado a ler nas imagens os conceitos, a compreender nas apresentações as ideias que estão por trás. O site da TCN (e aconselho talvez a ver outros sites de arquitectos e outras empresas para perceber a diferença) para além das questões de gosto, não mostra nada, não explica o projecto, apresenta três ideias banais, com umas imagens e uns esquemas que já serviram para mil um projectos. A questão é que a TCN promove empreendimentos novos para áreas periféricas e o Bolhão não é um projecto novo, é uma reabilitação. E isso é que preocupa, porque estamos bem no centro da cidade num edifício marco-indiferenciável da cidade e nao a construir o outlet de Grijó ou a Exponor XXI. E essa é a diferença fundamental.
Já agora ficam aqui também três fotos do mercado nesse último Sábado.
A passagem do Comboio de Velocidade Elevada no Sá Carneiro é considerada imprescindível pela maioria dos agentes que já se pronunciaram sobre o assunto. Com excepção de dois: Emídio Gardé e a Secretária de Estado dos Transportes. Esta diz até que os comboios rápidos (TGV's e outros) não são para servir aeroportos mas sim cidades, e aponta até o exemplo da Europa. No entanto, a sua lógica parece só valer para o Porto e a citada Europa. Para Lisboa já não serve: sempre que o fantástico aeroporto - cidade aeroportuária aerogare de Portugal, a infra-estrutura que vai reduzir Barajas a pó, concorrer com Londres e Frankfurt no mercado dos voos intercontinentais da América e África para a Europa, mais conhecido por NAL (Novo Aeroporto de Lisboa) - muda de sítio lá leva a sua estação de TGV a reboque e aos trambolhões. E não só: leva também consigo uma parafernália de pontes, faixas de rodagem, linhas e ramais ferroviários atrás. Estamos esclarecidos.
O facto da distância ser curta - entre Campanhã e o ASC - é que torna desnecessário que a velocidade seja elevada. O que interessa é o tempo de percurso final em entre os dois pontos notáveis - Cidades do Porto e Vigo - e não o tempo gasto nos troços intermédios. Desde, obviamente, que o primeiro não seja posto em causa. A minha proposta visa retirar argumentos ao Governo para não ligar o ASC à linha Porto - Vigo logo a partir o dia em que esta seja inaugurada. Esse é que me parece um objectivo importante.
Logicamente eu também preferiria uma solução muito mais eficaz como seria um túnel. Aliás, preferiria até uma linha totalmente nova, construída de raiz com uma velocidade de projecto de 250 km/h, com bitola europeia, com entrada na cidade, vinda do sul, em ponte na zona da Arrábida, passagem pelo Porto em túnel, estação nos terrenos devolutos da antiga Estação da Boavista junto à Casa da Música - um edifício totalmente construído em vidro, transparente, para não tapar a visão da obra do Koolhaas -, seguimento em túnel até ao Sá Carneiro e daí a Braga e Vigo. Assim, tudo limpinho e eficaz. Haja políticos e cidadania com coragem, e respectivos apêndices, para impor isto. E já agora dinheiro também. Como dizem os brasileiros: convém cair na real! :-)
António Alves
Numa altura em que as populações começam a despertar para os efeitos da radiação electromagnética, como pudemos observar nos casos de Silves e das linhas de alta tensão, a Câmara Municipal do Porto decidiu aumentar a radiação electromagnética na cidade, criando uma malha de canais rádio (mesh) a operar em banda não licenciada (na frequência de 5GHz).
Já não chegam as antenas de telemóveis colocadas nas fachadas e nos telhados dos edifícios de 50 em 50 metros um pouco por toda a cidade (e arredores)? Sou contra todo o tipo de tecnologias wireless que propagam radiações electromagnéticas, é que estas radiações atravessam as paredes (tal como atravessam os tecidos dos humanos), e eu sou obrigado a levar com elas em minha casa, sem ninguém me ter pedido autorização para tal. É certo que há meia dúzia de indivíduos que ficam ricos à custa destas tecnologias, basta vermos as empresas de telemóveis.
Existindo uma tecnologia que é completamente inofensiva (a tecnologia com fios) porque razão abdicam dela e preferem apostar numa tecnologia que tem riscos conhecidos? Se a Câmara Municipal do Porto não tem onde gastar dinheiro que o devolva à União Europeia, é preferível devolvê-lo a gastá-lo nisto. Vou ainda mais longe, sabendo que as redes wi-fi normais funcionam a 2,4GHz, e que esta NOVA tecnologia da Cisco funciona nos 5Ghz (ou seja uma frequência muito superior às dos micro-ondas das cozinhas) será que este NOVO sistema da Cisco irá transformar os cidadãos destas zonas do Porto em cobaias?
Mais um projecto ridículo da CMP.
Artur Gomes
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Nota de TAF: Caro Artur Gomes, eu já expressei a minha opinião sobre o assunto aqui. Contudo, as suas preocupações parecem-me infundadas. Nós vivemos completamente "bombardeados" por radiações electromagnéticas, a maior parte das quais de origem natural, e não é por isso que perdemos a saúde. Veja este exemplo: a luz também é radiação electromagnética e também tem "uma frequência muito superior às dos micro-ondas das cozinhas", mas não é por isso que estamos todos às escuras. :-) Referiu uma "tecnologia que tem riscos conhecidos". Que riscos são esses? Eu não os conheço. O standard em causa, para aplicação a Wi-Fi, é do IEEE de 1999, mas a banda dos 5GHz já foi usada para outras aplicações muito antes. Mesmo em Wi-Fi já há inúmeros locais, pelo mundo fora e em Portugal ("indoor" e "outdoor"), onde este standard é usado. A aplicação específica proposta pela Cisco é que é relativamente recente. Não vejo também que fosse muito prático estar numa esplanada com um cabo pela rua fora de modo a evitar o wireless... ;-)
Meus Caros,
Uma das nossas fraquezas é a dificuldade em sermos razoáveis. O que se passa com as reacções à decisão da Câmara do Porto de entregar a gestão do Mercado do Bolhão, na sequência de um concurso público, note-se, é um bom exemplo disso.
O Mercado do Bolhão, como todos os outros mercados do Porto, foram mortos por todos nós quando decidimos passar a comprar os alimentos de que precisávamos nos supermercados que, entre muitas outras vantagens, estavam abertos a horas mais convenientes, e também quando passámos a exigir que as regras de higiene e segurança alimentar fossem aplicadas sem condescendências, e ainda quando os próprios governos e Câmaras criaram mercados abastecedores com novas acessibilidades, condições e dimensões capazes de responderem ao fornecimento de restaurantes e outros profissionais dos serviços alimentares. Os grandes concorrentes dos mercados são, para além das sempre culpadas grandes superfícies, todas as mercearias e frutarias de pequena dimensão que apostaram na conveniência da proximidade e tornaram definitivamente desnecessária a deslocação dos consumidores aos mercados. A percentagem de consumidores que frequentam os mercados deve ser equivalente à percentagem de pessoas que escrevem numa máquina de escrever e que só o fazem por incorrigível romantismo ou por incapacidade de mudarem de hábitos longamente enraizados.
Tal como as carvoarias, os latoeiros, os abegões e os almocreves, os mercados foram progressivamente perdendo a sua utilidade e, como tal, perderam sentido económico. A esmagadora maioria dos que me estão a ler não faz compras num mercado já não digo regularmente, mas nem sequer esporadicamente, se é que alguma vez o fez. Este dado, o do abandono dos mercados por todos nós, é uma realidade que nenhuma manifestação nem nenhuma súbita declaração de amor vai resolver.
Perante isto, o que pode fazer uma Câmara? Pode fazer de conta, como fez durante décadas a Câmara do Porto, com o apoio hipócrita de todos os políticos e candidatos a políticos que nunca deixaram de jurar manter o mercado nas inevitáveis sessões de beijinhos e palavrões de que vive o folclore eleitoral da cidade, para logo a seguir às eleições se esquecerem dele. A gestão de Fernando Gomes encomendou um projecto ao Arquitecto (que hoje encabeça uma manifestação para que o seu projecto seja recuperado, numa forma peculiar de o tentar realizar) e depois de o pagar percebeu, e bem, que o problema do Mercado do Bolhão não se resumia a uma questão de arquitectura e arquivou-o.
A principal questão que se coloca é a de se descobrir para que pode servir o edifício, que é classificado e que não pode ser demolido como dizem na sua inocência os jovens arquitectos que acompanham o autor na organização da manifestação, já que há leis e organismos que existem para garantir que isso não acontece (neste momento não há qualquer indício que não vão cumprir a sua missão, basta ler a entrevista que a Directora regional do IGESPAR - antigo IPPAR- deu ao JN recentemente para perceber isso).
A Câmara lançou um concurso público para encontrar quem, tendo uma ideia e capacidade de a realizar, pudesse, mantendo o edifício, assumir a gestão do mesmo, já que se há coisa que está demonstrada até à náusea é a incapacidade da Câmara para o fazer. O que se pediu foi que aparecessem as empresas que o queriam fazer. O projecto de arquitectura que tantos agora querem ver ainda não está feito, já que não foi um concurso de projecto, mas de concessão de um espaço em que foi negociado um programa. Como os meus amigos arquitectos tão bem sabem, um projecto de arquitectura sem programa nem quem o realize é, por muito que custe, inútil. Não conheço bem o programa que venceu, mas sei que terá que ser convertido em projecto de arquitectura e submetido à aprovação de todas as entidades que nesta cidade licenciam os projectos. Só quem nunca fez projectos nesta cidade é que pode achar que vai ser fácil aos promotores desse programa conseguirem fazê-lo sem respeitar o Património e os direitos que a lei confere a todos os ocupantes e comerciantes. Se a ideia dos organizadores da manifestação é a de provocarem o debate sobre o programa do Bolhão deveriam ter começado por aí, por uma proposta de programa sustentável, e não com a utilização do fantasma da demolição já que essa demolição não é legalmente possível ou com a defesa de um projecto de arquitectura que nem quem o encomendou quis fazer.
Eu, que até tinha uma ideia de programa, não apresentei nenhuma proposta ao concurso e, como tal, respeito muito quem o fez. Sobretudo sabendo o que ainda vão ter de fazer para que a desejada reabilitação do edifício do Mercado do Bolhão seja bem sucedida.
Francisco Rocha Antunes
gestor de promoção imobiliária
PS - Acho relevante declarar que sou responsável pela proposta que foi apresentada noutro concurso da mesma natureza promovido pela Câmara do Porto e que não tenho nada contra manifestações de cidadania, antes pelo contrário.
«A DEMOLIÇÃO DO MERCADO DO BOLHÃO DO PORTO»
Exercendo o Direito à indignação, apresentam o manifesto em anexo onde justificam, sumariamente, as causas para este Dever de Cidadania
Agora publicado, e conhecida a causa da nossa indignação, será a cada um de nós, caso o entendamos, de exercer o Dever para a Manutenção e a Reabilitação deste Belo e Precioso Mercado do Bolhão do Porto. Baú, repleto de referências humanas e históricas, do abastecimento alimentar, de transformações económicas e sociais, por força da alteração dos modos de produção, entre eles o Agrícola e o Industrial. Queremos acreditar,que este singelo gesto cívico poderá contribuir para a Reabilitação do Mercado do Bolhão como Património da cidade, e no Porto Património da Humanidade, classificado pela UNESCO.
Os Autores do Manifesto e Movimento Cívico:
JOAQUIM ORLANDO FONSECA MASSENA, Arquitecto
DANIEL FERNANDO DA SILVA SANTOS, Profissional de Produção e Tecnologias da Música
FILIPE MASSENA, Arquitecto
ADRIANO REIS, Finalista de Arquitectura
ANA SOFIA GASPAR, Finalista de Arquitectura
CLARA MARIA MASCARENHAS VIANA, Finalista de Arquitectura
DANIELA RIBEIRO TEIXEIRA, Finalista de Arquitectura
GISELA FERREIRA, Finalista de Arquitectura
SNEHA KUMAR, Finalista de Arquitectura
TÂNIA CRUZ, Finalista de Arquitectura
CÍNTIA PIRES, Estudante de Arquitectura
DIOGO MASSENA, Estudante de Arquitectura
MAFALDA MENDONÇA, Estudante de Arquitectura
RAFAELA TELES, Finalista de Medicina
Para contactos: Daniela Teixeira ( tlm: 918545021 )
- Contra a Demolição do Mercado do Bolhão
- Porto/Mercado do Bolhão: Grupo de arquitectos e estudantes contra projecto aprovado pela Câmara
- "Demolição" do Bolhão provoca debate na cidade
- "A Câmara teve uma atitude provinciana"
Como aquela publicidade que existia na tv há muitos anos atrás: "já estou (quase) convencido; levo a etiqueta!"...
Com efeito, parece-me que o "clique" é dado por José Silva no traçado que propõe, que torna o altamente sinuoso traçado da Linha de Cintura ("Ramal de Leixões") numa linha bem mais, digamos, "digna" de um traçado de velocidade elevada. E, mesmo com trechos em túnel, seria certamente muito mais barato do que a solução minister[ofic]ial de um túnel entre Campanhã e o Aeroporto Sá Carneiro. Mas continuo com dúvidas quanto ao facto da distância entre Campanhã e o ASC ser demasiadamente pequena para que qualquer comboio possa atingir uma velocidade de cruzeiro digna de registo.
Por último: o meu agradecimento pessoal pelo reconhecimento da utilidade da integração do Ramal da Alfândega na malha ferroviária do Porto...
Emídio Gardé
