De: Rui Valente - "Sobre o Bairro do Aleixo"
Meus Senhores,
em nome da urbanidade cívica, é chegado o momento de fazermos todos de conta que não percebemos que o aumento da criminalidade está directamente relacionado com o aumento do desemprego. O excelente negócio urbanístico do Bairro do Aleixo recomenda-o! Assobiemos portanto para o lado, contestemos toda e qualquer argumentação que não repudie a demolição dos edifícios. Os pobres que se cuidem. Afinal, sempre existiram, porque haveriam agora deixar de existir? Então, polícia em força para o Aleixo! Já! A propósito, sugiro que se aproveite a boleia radicalista para pôr a mão a outro tipo de criminosos conhecidos que se movem por certas instituições bancárias (se houver coragem para isso, claro).
É claro que, perante um mesmo quadro se mudássemos de "ares" e de protagonistas, as coisas mudavam logo de figura. Se a Câmara ou alguém ousasse desalojar algum ricalhaço de uma moradia de Marechal Gomes da Costa, o assunto - a ser assunto - seria tratado com pinças, já que quem se atrevesse a levar a cabo tal afronta corria o risco de pagar com prisão a brincadeira, tal era o balúrdio que o "infractor" seria obrigado a pagar de indemnização. Só que há "infractores" e infractores. Quando o "infractor" se chama Câmara Municipal do Porto, dá-se corpo à famosa expressão de George Orwell que dizia: "todos os animais são iguais, mas há uns que são mais iguais do que outros!"
Estará o Bairro do Aleixo a ser palco de uma nova versão do Big Brother?
Humanizem-se senhores! Deixem-se de argumentações economicistas sem benefícios óbvios para os cidadãos (para todos os cidadãos). Aprendam a deixar de ver os problemas à distância do v/ umbigo ou do gabinete de projectos. Sejam solidários. Se querem tirar de lá aquela gente à força, então tenham a nobreza de lhes oferecer guarida nas v/ próprias casas. Ou, como alternativa, exijam primeiro a promoção de um debate que privilegie o consenso, tendo em conta as contrapartidas a oferecer a quem criou raízes naquele local e que, provavelmente, esperaria por lá acabar os últimos dias das suas vidas miseráveis.
Não lhes roubem também a dignidade. É tudo o que lhes resta. Sim, porque por lá, nem todos são traficantes de droga.




