De: Pedro Bragança - "Avenida dos Aliados"

Por uma qualquer razão – a mesma de sempre, enquanto fazia uma pausa a navegar um pouco aqui pelos blogs vim cair num qualquer que se referia à Avenida dos Aliados. Tratava-se de um espaço de contestação, de liberdade e 'discussão' do projecto dos arquitectos Siza e Souto de Moura. Ora, reúne-se aqui um conjunto de factores que propiciam muita falácia, muita palavra fácil. Como acho o tema divertido, como entendo o ridículo a que alguns 'opinion makers' chegam, como há muito não tocava no assunto e como é sempre controverso entendo que me devo voltar a lembrar de tudo.
A primeira falácia é falar no cinza, cinzentismo, escuridão, tristeza, desânimo entre outras expressões românticas que se atribuem à intervenção. Ora, diz o arquitecto Álvaro Siza, de modo exemplar e explícito, que as pedras, as juntas, o pavimento, os lampiões não se animam, por si só, sozinhos. O conceito de espaço público resulta disso mesmo; é o espaço adaptável e que acolhe diversos tipos de eventos, que serve a cidade e que sendo mutável e tendo características estéticas é feito para as pessoas o viverem e experimentarem.
A segunda falácia é obra dos que falam da intervenção como algo com 'cimento a mais'. Bom, onde está então esse excesso de cimento? O betão é feito de areia, água e cimento – com expressões destas já entendi onde correm os dois primeiros… De facto o que se passa é que o arquitecto A. Siza entendeu que a Avenida dos Aliados e a Praça da Liberdade apenas podia ter um 'revestimento' relacionado com a sua região e com o material da sua cidade. Grosseiros e Provincianos foram os que, aquando da construção da avenida, decidiram-se pelo material da capital, a calçadinha.
A falácia técnica – a terceira, é a que chama ao espaço de cota inferior Praça da Liberdade. Na verdade aquele espaço não se trata de uma praça. Como sabemos, ou devíamos saber, o Porto é uma cidade que não tem um único espaço com suficiente qualidade que lhe seja permitido envergar tal designação. Para isso, seria necessário que o espaço púbico estivesse todo ele em contacto com os edifícios que o conformam e que não fosse rodeado de ruas, cruzado por 'avenidas'; entretanto, continuam a ser rotundas. Por isso, ao contrário do que acontece no espaço público dos nossos vizinhos espanhóis, não podemos, até agora, dizer que vamos tomar um café à Praça da Liberdade, ou ao Marquês ou à D. João I (está dada a oportunidade de se falar dos projectos do sec. XX falhados para a Av. da Ponte).
A falácia da estátua é também divertida. Mas não deixa de ser irónico que o cavalo e D. Pedro IV se virem de costas para aquele que é, quase de certeza, o edifício mais feio, mais aberrante e ofensivo da cidade (de onde ainda não saiu a decisão de implodir o segundo – shopping Cidade do Porto).
Lamento que a cidade não tenha tido (ainda) suficiente discernimento para compreender arquitectos como Álvaro Siza ou Eduardo Souto de Moura. João Sousa Dias diz que os grandes artistas nunca são reconhecidos no seu tempo pelas massas. Recordo que os dois conformadores de espaços são responsáveis por projectos que valorizam a nossa vida, constantemente.
O que Rui Rio pensa sobre o assunto nada me aflige. Diz então que 'gosta de como a praça está', mas que compreende quem a sente como sua e então não consegue aceitar a mudança. Julgo que tem uma resposta parecida sobre a regionalização – e sobre tudo que envolve, verdadeiramente, opinião. Reflexo de uma pessoa intelectualmente desonesta, que sabe fazer política eleitoral. Sobre o assunto, pior, apenas consegue estar Mário Cláudio, que, na mesma linha da 'não-surpresa', conseguiu traçar um perfil para quem gosta daquele espaço – Somos pessoas frias, duras que temos uma relação difícil com o nosso próprio corpo. Pelo menos eu, assumo, devo ser assim.

OBS.A imagem que apresento refere-se a um evento que organizava no ano passado todas as quintas ao fim da tarde.
Cumprimentos,
Pedro Bragança
