De: Cristina Santos - "Cimo de Vila II"

Submetido por taf em Quarta, 2007-11-14 14:31

Caro Jorge Azevedo

Em relação a Cimo de Vila:

A degradação dos edifícios e a precariedade em que viviam a maioria dos residentes atraiu nos últimos anos estrangeiros, que vieram dos seus países em busca de melhores condições de vida e se fixaram em zonas «baratas», onde podiam passar despercebidos no meio da pobreza, ter um pequeno negócio pobre e amealharem algum dinheiro para poderem regressar. Fixaram-se neste local pelo estado de degradação em que se encontrava.

Maioritariamente «marroquinos» com ar de terrorista estavam e estão dispostos a pagar por um prédio, nem que o último piso esteja suportado por escoras, 1200 euros. Ora 1200 euros é pouquíssimo, as lojas são enormes e por cima delas regra geral existem 3 espaços para habitação. Eles partilham o espaço com várias famílias, no pior piso fazem armazém, 1200 euros por mês é de borla, mas ao fim do ano já dá para fazer um telhado novo. O problema é que muitos proprietários continuam a receber sem investir, os «marroquinos» são inquilinos que não se queixam da humidade, se não há luz nas escadas, e isto sim é terrorismo, abuso, e falta de noção de investimento por parte dos proprietários.

A par disto tem acontecido outra situação, a CMP e os inquilinos com renda condicionada (portuenses) têm requerido pelos meios existentes a reabilitação dos prédios aos proprietários. O que acontece é que estes prédios reabilitados, por mais que vos pareça surreal, atraem pessoas dispostas a pagar o que seja, para habitar num fogo com mais de 300 anos de existência, próximo à Batalha, a São Bento, ao Metro, a Santa Catarina, assistindo-se a uma renovação, ainda que lenta, da maneira de estar e ocupar esta rua. O problema neste caso são as rendas antigas, pode tirar-se 400€ num apartamento, mas os outros ficam-se pelos 100€ depois da actualização. Em prédios onde vivam «marroquinos» não há queixas contra proprietários e a degradação vai-se mantendo, embora o prédio renda.

Há alguns paquistaneses que suportam rendas actuais e alugam fracções reabilitadas. Mas a grande maioria continua a ocupar esses prédios semi-devolutos, em ruína, não tem posses para os prédios reabilitados, eles não são propriamente terroristas, nem causam transtorno, são pobres, sujeitam-se ao que os nossos felizmente já não se sujeitam, e funcionam como um móbil, trazem ganhos aos proprietários, ganham também, e problemas sociais não arranjam.

Fossem os proprietários inteligentes e à boleia dos «marroquinos» pobres, já tinham edifícios reabilitados a valer milhares de euros. Assim e no meio de tantos pobres árabes, mais a notícia da detenção de um possível terrorista na Rua Cimo de Vila, pode despoletar a ideia de perigo e crime, mas por ali o único perigo eminente é mesmo soterrar os árabes debaixo dos prédios sem condições, que rendem bem mas que não beneficiam de obras de reabilitação.

Espero ter-me feito entender, neste longo texto, peço também desculpa por só agora voltar ao contacto, mas fui apanhada por um Inverno disfarçado de Verão e fiquei quase a morrer, com aquilo que afinal não passava de uma constipação. Tão cedo não volto aos Cornos das Alturas, nem que por lá haja muitos linces, aquele frio quase mata um portuense habituado a este ambiente ameno.

M. cumprimentos