De: Nuno Casimiro - "Dos não-lugares"

Submetido por taf em Quarta, 2007-11-14 10:32

Abriu um novo centro comercial no Porto. O edil diz que é mais um passo na revitalização da Baixa. O novo centro comercial – shopping, como se diz agora – fica do outro lado da rua de um "velho" centro comercial. Como todos os outros, diz que revolucionará o conceito e a forma, o som e a fúria. Eu lembro-me do Brasília e do Dallas - que é o sítio para onde vão as lojas e os centros comerciais quando morrem e não têm lugar no céu.

Não é preciso ser urbanista, sequer um curioso destas coisas da cidade, para perceber que um centro comercial seca uma série de coisas em seu redor. É uma estrutura feita na mesma lógica do condomínio fechado, onde se entra e se está protegido do clima, dos cheiros, dos pedintes, dos carteiristas e da realidade: as cores, sons e cheiros são à medida da realização pessoal de cada um. E as gentes entram de carro, circulam, eventualmente compram, entram no carro e partem para o regresso a uma outra cidade. 10 ou 15 anos depois, o shopping cumpriu a função para que foi construído: rentabilizar o investimento dos seus promotores a 10 ou 15 anos. Nessa altura serão uma visão cristalizada do que era uma certa imagem da época em que foram construídos.

Os jornais anunciaram que 3000 pessoas encheram o estaminé na abertura.

O comércio tradicional há-de reclamar e a D. Laura há-de dizer (talvez até já tenha dito) palavras de circunstância apoiando a instalação de mais este exemplo de modernidade visionária e sagaz. O que os ineptos que autorizam e fomentam este tipo de coisa não percebem é de que não se trata aqui de um problema de comércio mas antes de um problema sério de cidade.

Um centro comercial não é cidade, embora cada vez mais reproduzam, na decoração e imagem publicitária, uma idealização de cidade patusca e sofisticada ao mesmo tempo. Um centro comercial (ao lado de outro centro comercial, e a menos de meia hora de outra meia dúzia) no centro de uma cidade é tão só um não-lugar, é a negação da urbe disfarçada de espaço público da era moderna. Revitalizar um centro urbano é fazer com este seja usado e vivido. O que estes shoppings promovem é a utilização dos seus espaços – quase sempre interiores e, eventualmente, com uma segura vista sobre a cidade (veja-se o caso do Dolce Vita, em Coimbra) – mas afastando as pessoas do que é inseguro, feio e impuro: a cidade ela mesma. A verdade é que as pessoas vão ao shopping viver aquele simulacro de cidade e partem para uma realidade outra a uma distância variável dali. O que está à volta, consequentemente, não existe.

nuno casimiro