De: Rui Valente - "Um luxo, no meio do lixo?"
As dívidas são para se pagar. Recomendadamente, a tempo e horas. Assim mandam os bons costumes e o "tráfico de influências" positivas, actualmente em vias de extinção.
Lembro-me de, um dia, ter ouvido dizer o falecido Presidente da Câmara da Maia, Vieira de Carvalho, que se estivesse à espera de ter os cofres da autarquia com o dinheiro necessário para realizar os seus projectos, a cidade paralizava e não conseguia fazer uma única obra. Suponho que ninguém hoje tem deste homem, já desaparecido, a ideia de um mau autarca ou que seja capaz de negar o salto qualitativo que conseguiu dar àquela cidade.
Luís Filipe Menezes seguiu-lhe o exemplo e conseguiu transformar o "dormitório" de Gaia numa cidade moderna e atractiva. Qualificou e despoluiu as praias a sul do Douro até Espinho e restaurou-lhes a dignidade com o carimbo de confiança da Bandeira Azul. Endividou-se? Era inevitável, e sê-lo-á no futuro, enquanto o Estado se recusar a dar o exemplo de bom pagador. Eu faria exactamente o mesmo, ou então batia com a porta e mandava-os à fava. É por isso, que na margem direita do Douro temos uma cidade cada vez mais atrasada no seu processo de restauração, que anda a passo de caracol, desperdiçando recursos com eventos de carácter temporário, e na margem esquerda emerge uma outra, dinâmica e positivamente agressiva a tirar proveito da apatia e dos complexos da sua vizinha.
O estudo para um comércio de luxo na Av. dos Aliados que foi notícia no JN de hoje é positivo e ambicioso, mas terá diculdades em vingar se não for acompanhado de uma recuperação célere e enobrecida de toda a zona histórica. Ninguém experiente investe milhões em estabelecimentos requintados, rodeados de pardieiros e lixo por todo o lado. Ainda está para nascer o primeiro "aventureiro" a abrir uma loja Versace ou Dior num bairro de lata (ou cenário semelhante), mas nunca se sabe... Os portuenses costumam festejar depois de digerirem a festa, mas como os tempos andam propícios a imitações foleiras, somos capazes de nos estender ao comprido. Mais uma vez.
Rui Valente
